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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Olhar o chão

Imagem retirada da net e manipulada por mim

Já tinham reparado no desenho da calçada no Largo do Chiado (Rua Garret)?
Pois, nem eu! Que vergonha. Nascida e criada nesta zona da cidade e tenho de confessar que nunca tinha reparado no pormenor, e tantas são as vezes que aqui passo. Com  a correria do dia à dia, muitas vezes, não dou a devida atenção a estes detalhes, que tornam a nossa cidade tão bonita.

Acho que devia olhar mais vezes para o chão e admirar os belíssimos trabalhos das calçadas Lisboetas.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Solidão



Hoje li uma notícia que me deixou desanimada, sem alento. Dois irmãos Cristina e Pedro, de 53 e 57 anos, ambos sem abrigo, decidiram meter termo à vida deixando escapar a vida na frente de um comboio. Segundo a notícia foi o desespero e a solidão que os levou a cometer tamanha loucura.

Durante mais de um ano, através da Comunidade Vida e Paz, fiz voluntariado junto dos sem abrigo de Lisboa. Todas as semanas, percorria uma zona da cidade numa carrinha com mais alguns voluntários, para distribuir comida e agasalhos. Estas voltas eram feitas de noite a partir das 21h00 e muitas vezes acabavam bem depois da uma. Encontrávamos de tudo. Novos, velhos, alguns loucos, outros perdidos. No olhar de todos eles havia algo em comum, a dor da solidão. É triste saber que há quem não tenha ninguém, que há quem não tenha um trapo. E o pior é que muitas vezes somos de tal forma egoístas que nos queixamos de barriga cheia.

Durante muito tempo tive dificuldade em dormir. Trazia para casa as histórias de vida destas almas perdidas. Relembrava no escuro as marcas que a rua deixava em cada um deles. Marcou-me a solidão, o vazio do olhar, a carência que nasce em cada um destes seres abandonados pela sociedade.

Lamento por todos eles.



terça-feira, 16 de outubro de 2007

Simplesmente contagiante

De manhã, bem cedo, tentei arranjar lugar para o carro no Chile, mesmo perto da praça de Arroios.
A minha consulta estava marcada para dai a meia hora.
Depois de estacionar num lugar apertado gentilmente indicado por um dos “arrumadores de carros”, recostei-me no assento e levantei o som do rádio.

Ouvi, vindo da rua, a palavra obrigado, por diversas vezes. Chamou-me à atenção tanto mais que estava numa rua ainda meio adormecida. A personagem principal desta manhã era o tal senhor oriundo de países de Leste que tão agilmente organizava o estacionamento. Com uma boa disposição incansável, saltava frenético de um lado para o outro, gritando obrigado por tudo e por nada, numa alegria completamente contagiante. Cada obrigado era servido com uma vénia majestosa. Era um indivíduo na casa dos 50, com o rosto marcado pela vida. Magro e de cabelos grisalhos. Não velho, mas sim cansado. Contudo sempre com um brilho no olhar e um sorriso amistoso.

Nas minhas voltas nocturnas dos sem abrigo aprendi que na grande maioria das vezes estes homens gastam o dinheiro que ganham no álcool, contudo este homem alegre seria uma excepção à regra. Ainda tive tempo de o ver sair do mini preço com um saco de pão, algo envolvido em papel, provavelmente para acompanhar o pão, e dois pacotes de leite.
Deleitou-se então, ali mesmo, sentado na soleira de uma porta a tomar o seu pequeno-almoço tão merecido. Sempre que um sorriso enorme, sempre com uma simples alegria e evidente.

Foi um doce pela manhã.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Enquanto a cidade dorme...


Ontem à noite corri mais uma vez os cantos mais inóspitos da cidade.
Os sem abrigo recorrem a todas as arcadas que os possa acolher do ar gélido que assombra a Baixa, aquela hora da noite. Os cartões são o seu maior tesouro, pois retêm o calor dos seus corpos, fazendo com que o tormento da noite não seja tão insuportável.

Todas aquelas pessoas deambulam durante o dia de um lado para o outro, de uma forma mecânica, aguardando desesperadamente, que todos os transeuntes deixem a cidade e sigam caminho para suas casas. É a única forma de se poderem nos seus nichos habituais sem serem importunados. Nichos esses que são quase sempre frentes de lojas, com arcadas e com alguma iluminacão. Acho que a luz os conforta.

Em plena Almirante Reis a maioria deles deitam-se nas tais arcadas de lojas de móveis, o grande monopólio da zona. Imaginem o que será adormecer sobre o chão de pedra, frio…sujo…com o corpo magoado do desconforto, olhando para uma cama, com todo o seu luxo e esplendor.
É uma imagem cruel.

Este é um pedaço do mundo que já faz parte do meu quotidiano.
Sei que o que faço não é muito, mas é o que posso e sei que pelo menos aquela refeição eu consigo garantir-lhes. A refeição, uma palavra amiga, um pouco de companhia.

Este, seria um mundo melhor se não existissem pessoas com estas necessidades, mas se existem e este não é um mundo maravilho porque não fazer a diferença? Porque não dar a mão?

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

De volta às ruas.


Ontem foi noite de voltar às ruas.
O ar gélido consumia-me a face que teimava em se manter vermelha, como o sangue que a grande velocidade me corria nas veias. Estava a mil. Esperei duas semanas para voltar a fazer o percurso que tanta esperança me dá.
A ronda foi a mesma de há quinze dias e por isso mesmo revi os mesmos rostos, os mesmos olhares só que desta vez com uma angústia agravada, trazida pelo frio.
A carrinha, já por eles tão conhecida, chegava com a refeição da noite mas reparei que os seus olhares caíam em busca de roupa e cobertores. Com esta vaga gelada o que os preocupa é saber que vão enfrentar a noite com a roupa que têm no corpo, alguns com sorte, contam com o cartão que lhes serve de resguardo, ou então com o fiel animal que os aquece durante a madrugada.
Não havia mantas e cobertores suficientes para todos…alias, poucos haviam.

Encontrei a mesma velhinha, sozinha em Santa Apolónia, a fumar a sua beata…pensativa, como se nada mais em sua volta existisse. Deixei-lhe um saco de comida e um copo de leite. Não foi preciso ouvir a palavra obrigado. A sua gratidão foi-me transmitida pelo olhar, durante o breve momento em que voltou à realidade. Olhar doce…rugas da vida.

Sempre que venho da “volta” sinto-me mais leve, os meus problemas, pequenos problemas dissipam-se e tenho noção de que cada vez mais tenho menos razões para me lamuriar da vida.

Não tenho tudo o que quero mas tenho tudo o que preciso.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Numa destas noites.


Na terça-feira passada o nevoeiro tomava conta da cidade…a humidade crescia a cada esquina, foi uma sorte não ter chovido.
Fomos finalmente dar a volta pelas ruas da cidade onde aqui e ali, se encontram corpos deitados no chão, sobre a pedra, ou um simples cartão. Mal agasalhados, com fome e alguns entregues a uma solidão imensa.
Os mais velhos têm nos trapos a história de uma vida e esperam pacientes pela chegada da carrinha, sabendo que aquela é a única refeição do dia que está garantida.
Bebem o leite de uma golada só para que possamos encher novamente o copo…é ter fome, é ter fome que os leva a acolher-nos como os anjos da noite.
Os olhares tristes transformam-se num obrigado, alguns precisam inclusive de falar um pouco, contar qualquer coisa, ou então comer ali ao pé de nós só pelo calor humano.
Muitos dormem sob as arcadas com cães, o fiel e eterno amigo e com eles dividem o pouco que têm para comer, mas com o cair da noite recebem a sua recompensa, já que dormem de corpo colado tentando concentrar ao máximo o calor.
Recordo-me bem dos estrangeiros, que agarrados às memórias de um passado recente nos falam do que deixaram para trás quando vieram para Portugal. Também eles dormem na rua, alguns tão perdidos que nem se levantam para comer, temos de ser nós a deixar perto deles o saco com os alimentos.
Nestes cantos da cidade, cantos imundos, onde predomina o cheiro intenso da urina, cantos escuros, becos sem saída, arcadas, escadas…ao pé da linha do comboio, qualquer sitio serve para dormir, para descansar o corpo do tormento que é viver assim. E engane-se quem pensar que ser mendigo é uma opção.

Nessa noite cheguei a casa, tomei um banho e enfiei-me na cama, encolhida, como que dentro de um casulo. Ter um tecto, uma cama quente, um cobertor ou um pijama…é uma bênção.

Já há muito que não dormia assim…

Foi libertador!