sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Existe uma linha que separa a manhã e a tarde da Baixa Lisboeta


Todos os dias faço o mesmo caminho. Atravesso a Baixa desde a Rua dos Fanqueiros até à Rua Áurea, uma vezes pela Rua de São Julião, outras pela Rua da Conceição, ou mesmo pela Rua do Comércio, e o cenário é semelhante.

Na Baixa de Lisboa, ao final do dia, as ruas estão repletas de turistas contentes, de homens estátua, de capas negras e caloiros, de quem anda às compras, de quem se passeia, de pessoas que vão daqui para ali e dali para aqui. De esplanadas e mais esplanadas. Tudo se compra, tudo se consome. Existe uma alegria generalizada que acaba por ser contagiante.

Mas de manhã cedo, enquanto o Sol se mostra envergonhado por detrás dos prédios tentando banir a Lua da noite que já lá vai, as ruas da Baixa Lisboeta estão desertas. O que se vê aqui e ali é triste. A alegria das outras horas do dia está ausente. Pouco depois de anunciar as sete, os sem abrigo começam a recolher o cartão que lhes serviu de abrigo. Este e aquele canto tresandam a urina. Neste e naquele banco, alguns comem o que retiraram do lixo durante a madrugada, enquanto cada um de nós dorme, confortavelmente, na sua cama. Não há alegria. Há pobreza, solidão, abandono.

Todas as manhãs, atravesso esta minha Baixa Lisboeta, que tanto me dá e tanto me tira, e dificilmente consigo manter um sorriso.


Fotografia do meu set no Flickr

15 comentários:

  1. E o frio ainda não chegou...
    :(

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    1. Pois...mas a chuva já cá anda e com o piso molhado e a humidade, dificilmente conseguem um lugar decente para dormir :(

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  2. é a triste realidade que toda a gente evita ver com olhos bem abertos, fingem não saber, não ver, não falar...
    há muita tristeza por este mundo fora!

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    1. Sim, é verdade...e o pior é que na maioria das vezes isto passa-se mesmo ao nosso lado :(

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  3. Sério Marta?!? Sim, é muito sério tudo isto. Em Portugal não vi esta miséria, talvez porque a hora em que transitei pelas ruas não foi esta que descreveste, mas em Paris, a toda hora se vê mendigos pelas ruas, e no frio constante que faz por lá não sei como eles sobrevivem. Ontem em São Paulo no cair da tarde vi muitos a rua. Estava quase a nove graus. Meu coração se aperta. Dura a realidade em que vivemos.

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    1. Sim Carolina, é verdade :(
      Infelizmente acontece aqui e em todo o mundo. Na Baixa de Lisboa isto é mais visível à noite e de madrugada. Eu já fiz voluntariado durante 2 anos e conheço a vida desta gente. Corpos vazios de alma...gente abandonada à sorte. Lamento que na maior parte das vezes a nossa vontade seja insuficiente para mudar este "mundo".

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  4. Bem escrito menina Marta. ;)

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    1. Obrigado Patife.
      Há quanto tempo!

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  5. Que triste, dor de alma.

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  6. Doi mesmo ver isso......

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    1. E tu conheces esta realidade que falo, certo?

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  7. É o que mais me custa em Lisboa ou qualquer outra cidade, pois infelizmente existem em todo o mundo...
    E dói mesmo.
    Beijinho

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