quarta-feira, 29 de novembro de 2006

De volta às ruas.


Ontem foi noite de voltar às ruas.
O ar gélido consumia-me a face que teimava em se manter vermelha, como o sangue que a grande velocidade me corria nas veias. Estava a mil. Esperei duas semanas para voltar a fazer o percurso que tanta esperança me dá.
A ronda foi a mesma de há quinze dias e por isso mesmo revi os mesmos rostos, os mesmos olhares só que desta vez com uma angústia agravada, trazida pelo frio.
A carrinha, já por eles tão conhecida, chegava com a refeição da noite mas reparei que os seus olhares caíam em busca de roupa e cobertores. Com esta vaga gelada o que os preocupa é saber que vão enfrentar a noite com a roupa que têm no corpo, alguns com sorte, contam com o cartão que lhes serve de resguardo, ou então com o fiel animal que os aquece durante a madrugada.
Não havia mantas e cobertores suficientes para todos…alias, poucos haviam.

Encontrei a mesma velhinha, sozinha em Santa Apolónia, a fumar a sua beata…pensativa, como se nada mais em sua volta existisse. Deixei-lhe um saco de comida e um copo de leite. Não foi preciso ouvir a palavra obrigado. A sua gratidão foi-me transmitida pelo olhar, durante o breve momento em que voltou à realidade. Olhar doce…rugas da vida.

Sempre que venho da “volta” sinto-me mais leve, os meus problemas, pequenos problemas dissipam-se e tenho noção de que cada vez mais tenho menos razões para me lamuriar da vida.

Não tenho tudo o que quero mas tenho tudo o que preciso.

domingo, 26 de novembro de 2006

terça-feira, 21 de novembro de 2006

As minhas 5 manias


Anda por ai um desafio, se é que podemos chamar assim, das cinco manias.
Resolvi postar então as minhas cinco, se bem que foi difícil, porque são bem mais que cinco. Sou muito “manienta”.

1) Tenho a mania da arrumação. Para mim tem de estar tudo arrumado e quando digo arrumado é mesmo isso, tudo nos seus devidos lugares, tenho pastas, arquivos, arrumo a roupa por cores…é mais forte que eu.

2) Tenho a mania que sei tudo…e é mesmo só a mania, pois quase sempre dou com a cara no chão. Pfuuuuuuuu.

3) Tenho a mania dos cheiros…passo a vida a dilatar as narinas para obter um faro mais apurado, gosto de distinguir cheiros, aromas…gosto de reconhecer a pessoa pelo cheiro (o bom, claro!).

4) Tenho a mania de dormir sempre do mesmo lado da cama, embora seja uma cama de casal, nunca invado o lado direito da cama. Porque será?
5) Esta é uma verdadeira mania, mas daquelas...O Sol e a Lua.
Quadros, velas, espelhos, livros, adornos, brincos, caixinhas...tudo o que tenha um sol e uma lua.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Numa destas noites.


Na terça-feira passada o nevoeiro tomava conta da cidade…a humidade crescia a cada esquina, foi uma sorte não ter chovido.
Fomos finalmente dar a volta pelas ruas da cidade onde aqui e ali, se encontram corpos deitados no chão, sobre a pedra, ou um simples cartão. Mal agasalhados, com fome e alguns entregues a uma solidão imensa.
Os mais velhos têm nos trapos a história de uma vida e esperam pacientes pela chegada da carrinha, sabendo que aquela é a única refeição do dia que está garantida.
Bebem o leite de uma golada só para que possamos encher novamente o copo…é ter fome, é ter fome que os leva a acolher-nos como os anjos da noite.
Os olhares tristes transformam-se num obrigado, alguns precisam inclusive de falar um pouco, contar qualquer coisa, ou então comer ali ao pé de nós só pelo calor humano.
Muitos dormem sob as arcadas com cães, o fiel e eterno amigo e com eles dividem o pouco que têm para comer, mas com o cair da noite recebem a sua recompensa, já que dormem de corpo colado tentando concentrar ao máximo o calor.
Recordo-me bem dos estrangeiros, que agarrados às memórias de um passado recente nos falam do que deixaram para trás quando vieram para Portugal. Também eles dormem na rua, alguns tão perdidos que nem se levantam para comer, temos de ser nós a deixar perto deles o saco com os alimentos.
Nestes cantos da cidade, cantos imundos, onde predomina o cheiro intenso da urina, cantos escuros, becos sem saída, arcadas, escadas…ao pé da linha do comboio, qualquer sitio serve para dormir, para descansar o corpo do tormento que é viver assim. E engane-se quem pensar que ser mendigo é uma opção.

Nessa noite cheguei a casa, tomei um banho e enfiei-me na cama, encolhida, como que dentro de um casulo. Ter um tecto, uma cama quente, um cobertor ou um pijama…é uma bênção.

Já há muito que não dormia assim…

Foi libertador!

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Gosto de…


…andar descalça.
Dos pequenos-almoços de hotel;
do café pingado;
de jantar com os amigos;
de uma caipirinha antes de jantar.
Do Verão e das Esplanadas à beira mar, ou à beira rio;
de sentir a areia molhada nos pés;
do cheiro do mar.
de ouvir a chuva lá fora, enquanto me embrulho no sofá.
Das Sweats com capucho;
das calças com vários bolsos;
das meias grossas…
dos chinelos de enfiar no dedo.

De ver filmes…encostado no ombro dele
do cinema espanhol.
De um bom livro…
…uma história simples, um romance ligeiro.
De ouvir música pela manhã, enquanto me visto…
de cantarolar no chuveiro;
de percorrer as estações de rádio enquanto conduzo;
de acordar com uma melodia no ouvido.

Gosto que me mexam no cabelo…

Gosto de mim e dos meus.
Gosto de gostar…
Gosto!

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Apareceu-me voltar…


Quando acordo…ao som do despertador, deixo-me ficar na cama pelo menos mais dez minutos. É o suficiente para arrumar as ideias. Faço-o como uma terapia. Deitada na cama ainda quente medito sobre tudo o que tenho de bom, sobre tudo o que me dá vontade de me levantar e começar um novo dia. O silêncio que paira no ar envolve-se com o eco que vai dentro da minha cabeça, e logo aí começo a cantarolar uma melodia animada enquanto me levanto, com um sorriso escondido, que na realidade só de descobre depois de lavar o rosto.
Tenho a certeza de que encontrei os tais “dias melhores”.
Depois da porta fechada, finalmente surgiu uma janela.
Uma janela virada para o sol…
Concluo, dizendo que coloquei para trás o que não têm solução, colocando assim por ordem prioritária o que de facto é importante neste momento. O importante sou eu! Eu e tudo e todos que de mim dependem.
Aqui estou eu de volta, como sempre, com muita garra…muita vontade e sempre, sempre cheia de esperança.